terça-feira, 9 de agosto de 2011

Quero estar errado...

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(Quero agradecer ao meu amigo e companheiro de banda Maurício Surtão, afinal muitos dos assuntos deste blog surgem de conversas que temos depois dos ensaios)

Todo mundo se pergunta sobre o que é necessário para se tornar um grande profissional, e neste caso tornar-se um grande guitarrista. Muitas vezes também já me fiz esta pergunta, e depois de muitos anos tentando encontrar uma boa resposta esbarrei nela sem querer, e foi assistindo ao Victor Wooten.
Na vídeo aula ele pede para o pessoal enumerar 10 itens que cada um julga necessário para se tocar bem, e depois de inúmeras respostas (técnica, teoria, equipamento, feeling, etc.) ele deu a resposta:
"O mais importante é saber ouvir."

Simples assim, basta saber ouvir. Pois é, depois deste comentário comecei a reparar na forma como interagimos com as informações que chegam aos nossos ouvidos e infelizmente a conclusão foi desanimadora, vamos lá:
Muitas vezes um aluno tira uma música e começa a tocar junto com o seu MP3, tudo atravessado não por falta de condições técnicas, mas simplesmente porque ele não parou pra ouvir a música até entende-la. As vezes vou mostrar a forma correta e o aluno começa a tocar junto comigo sem ao menos parar para ouvir o que eu queria mostar. Bom, mas a coisa se complica ainda mais quando um músico já toca em banda e não para pra ouvir o que os outros companheiros estão tocando, parece que o músico segue uma música que está tocando na própria cabeça sem se importar com o que os outros estão tocando, e por aí vai...
Outro exemplo que poderia ser citado é sobre as pessoas que andam de bicicleta, fazem musculação ou outras coisas com o fone de ouvido, será que estão realmente ouvido a música? Será que estão apreciando realmente as nuances que uma boa música possui? Ou será que a música é apenas um ruido que serve para calar momentâneamente os próprios pensamentos? Parece que o SABER OUVIR virou algo raro hoje em dia.
Bom, mas mudando de assunto um pouco, o que isto tem a ver com o título do post? Simples: Quando uma pessoa não ouve o que a outra tem a dizer é porque ela julga que está certa e que não precisa ouvir mais nada de ninguém.
Já notaram que os maiores males da humanidade ocorrem justamente porque todo mundo quer estar certo ao mesmo tempo? Se eu estou certo e o outro também está certo, saimos na porrada e o mais forte terá a razão, parece que o ego quer estar certo não importando os argumentos, a lógica ou fatos ou qualquer outra coisa, o importante é estar certo (inclusive este é um apelo forte do que chamam de fé, mas isto é assunto pra outro post).
O que acontece quando uma pessoa não consegue sustentar sua opinião, quando o argumentos contrários ameaçam a certeza desta mesma pessoa? Simples: Fecho meus ouvidos e paro de ouvir, deixa de ser diálogo e vira monólogo, aliás a pessoa não ouve o que o outro diz e muitas vezes não ouve nem o que ela mesmo está dizendo...

O que acontece quando uma pessoa consegue desligar o ego e aceitar o fato de que por mais que tenha construído um conceito, este mesmo conceito pode estar errado? 
Acontece que quando aceita-se estar errado, abrem-se oportunidades de enxergar o erro e evoluir, passa-se a aceitar melhor as críticas vindas de fora, torna-se uma pessoa agradável, afinal não existe nada mais chato e cansativo e estressante do que conversar com alguém que acha que está sempre certo.
Todos temos nossas convicções, e para chegar a elas foi sofrido e demandou tempo, estudo e questionamentos, porém se alguém conseguir nos fazer enxergar onde existe o erro, devemos agradeçer, mudar ou ajustar a opinião e consequentemente subir um pouco mais a montanha da evolução. Logo não quero estar sempre certo, mas sim quero estar cada vez menos errado, mas a outra pessoa também deve estar preparada para ouvir os meus contra-argumentos e talvez mudar de idéia.

"Voltando ao assunto inicial, quem almeja subir na vida, quem almeja  ser feliz e viver em paz tem que querer estar errado as vezes, simples assim!"

Abraços!

3 comentários:

  1. Ae DU!!! Muito bem colocado essa opinião!!

    Sabe-se que isso claro não acontece apenas na música.
    Em nossas casas, nas amizades e também no Trabalho.
    Isso tem uma solução que claro é desligar o EGO dentro de cada um, pois quanto mais alto mais fácil de cair!
    E falando de Banda, é parte mais importante onde todos tem que se ouvir as opiniões de cada um, entrar em um ouvido e fixar na mente e assim ser muito bem aproveitada!
    Agora a pessoa que esta ouvindo ela sabe-se dizer quando ela desliga o ego e esta preparada para ouvir?

    Grande Du abração!!!!
    E claro Parabéns Pelo Blog!

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  2. Du, licença de novo pra comentar...
    Acabo de ler o post sobre a inabalável arrogância a que os seres humanos parecem estar condenados no "eita vaidade". Triste de tudo isso, é que o discurso macivo dos meios de comunicação, letras de música, uma bibliografia que vem sendo produzida sem critério algum, parece reforçar cada vez mais a idéia de que o ser humano é o super-homem da História. Vc cita alguns exemplos e muitos outros mostram como as pessoas naturalizam que são infalíveis, inatingiveis até chegar ao ponto de acreditar que de fato é superior aos outros animais e até mesmo a outros seres humanos. Nas escolas, igrejas (como vc exemplifica), no convívio com família, amigos, reproduzimos esse discurso mesquinho, nos sentindo a vontade pra "usar" tudo o que nos "serve" no mundo - isso desde recursos naturais, animais, até outros seres humanos. E neste ponto, penso que o mais difícil é conseguir perceber onde tudo está errado; dificilmente alguém procura mudar sem perceber onde está errando e aqui fica a grande encruzilhada: procurar ouvir seria uma alternativa pra perceber onde está o erro, mas será mesmo que ouvir o que está naturalmente colocado seria o melhor? ("Deus fez o homem sua imagem e semelhança", "arquitetos não são machos suficiente para fazerem engenharia e nem femininos o suficiente para cursarem moda", dentre outros exemplos que vc diz). Quando vc diz que ouvir pode nos tornar pessoas melhores, sem dúvida esse pode ser nosso caminho; mas essa ação dever ser um exercício. Somo ainda a essa proposta, a tentativa de ouvir e não contextar o que se ouve na hora. Isso não que dizer que "quem cala concorda", mas quem cala, até estar seguro, se resguarda do fato de resmunar sem ter aprendido nada e nem contribuido em nada com a pessoa que se propoz a escutar. Porém não sou muito otimista em pensar que as pessoas estão interessadas nesse exercício. Lembro-me do outro post que vc escreveu sobre a dedicação que temos que ter quando nos propomos a fazer algo bem feito. Não vejo as pessoas optarem pelo que é trabalhoso, que exige dedicação, observação e principalmente humildade pra alcançarem um resultado melhor no final. Sem dúvida, o que é rápido e fácil parece facinar mais. Compartilho uma experiência que tive: fim de semana estive em Pira e fui até a Cacheira de Emas; sentei sozinha na beira do Mogi e me propuz a ficar ali e ouvir o som do rio. Confesso que não vi a hora passar, mas quando terminou a tarde fui embora. Muita coisa se acertou dentro de mim e percebi outras alternativas que tinha pra tentar resolver um fato que tem me preocupado. Talvez eu tome uma decisão melhor agora, e se não o fizer, talvez o tempo me mostre novamente onde errei, ou algum amigo me dê um conselho melhor, ou outra oportunidade aconteça... Penso depois de ler o que vc escreveu, que de fato a humildade pode nos trazer muito mais do que a vaidade e a arrogância; penso ainda que posso aprende muito mais ouvindo que falando,ou tentando convencer outras pessoas sobre algo que serve só pra mim. A posição que vc tem quando escreve, me parece mais como socialização das experiências e impressões que tem do que um monte de argumentos sobre o que as pessoas deviam fazer - por isso que me acrecenta tanto - por isso não deixe de escrever.
    Que consigamos nos preocupar mais em sermos pessoas mais humanas do que nos dedicarmos a sermos a imagem e semelhaça de deus. Forte abraço Du.
    Cis Cinat

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